InícioMundoFerroviários britânicos iniciam a maior greve em 30 anos

Ferroviários britânicos iniciam a maior greve em 30 anos

Por melhores salários e condições de trabalho, mais de 50.000 trabalhadores ferroviários entram em uma greve de três dias, período mais longo desde 1989

Os trabalhadores ferroviários do Reino Unido iniciaram nesta terça-feira, 21, uma greve de três dias, anunciada como a mais longa em 30 anos, para defender empregos e salários diante da inflação fora de controle, mas seu impacto parecia ofuscado pela nova capacidade de muitos funcionários trabalharem de casa.

Durante a manhã, metade das linhas ferroviárias do país estava fechada e em outras apenas um trem em cada cinco operava. Em vez da multidão habitual da hora do rush, apenas alguns passageiros perambulavam pela grande estação King’s Cross de Londres, procurando nos quadros de avisos os poucos trens disponíveis. A maioria disse que simpatizava com a greve dos ferroviários.

O primeiro-ministro Boris Johnson, que sobreviveu recentemente a um voto de desconfiança e está sob pressão para fazer mais para ajudar os britânicos que enfrentam o impacto econômico mais difícil em décadas, disse que a greve prejudicaria as empresas que ainda se recuperam da covid-19.

Os sindicatos disseram que as greves ferroviárias podem marcar o início de um “verão de descontentamento” com professores, médicos, trabalhadores de coleta de lixo e até mesmo advogados caminhando para ações semelhantes muito em breve. “Tenho que viajar pelo país por conta do meu trabalho. Hoje tenho que ir a Leeds. Não há tantos trens como de costume, mas vou conseguir chegar”, comentou à AFP Jim Stevens, fotógrafo comercial de 40 anos.

Surpreso com a tranquilidade da estação, considerou que as pessoas seguiram os conselhos da TFL, a operadora de transportes públicos de Londres, e ficaram em teletrabalho, “ou então saíram de bicicleta”, carro ou ônibus, embora este último estivesse tão lotados que muitos não admitiam passageiros em algumas paradas.

Tamasine Hebaut, também de 40 anos e secretária de uma clínica médica, saiu de casa uma hora mais cedo do que o habitual. Chegou à estação de King’s Cross e de lá se perguntava como chegaria ao bairro londrino de Battersea, na margem sul do Tâmisa. “Talvez eu vá a pé. Tenho que ir trabalhar, porque trabalho na saúde”, explicou.

Após o fracasso das negociações de última hora, trabalhadores e empregadores permaneceram firmes em suas posições nesta terça-feira. O ministro dos Transportes, Grant Shapps, denunciou a greve como “desnecessária”. “Vamos ter que fazer com que essas reformas aconteçam”, disse ele.

O sindicato RMT alertou no início de junho que mais de 50.000 trabalhadores ferroviários entrariam em greve “na maior disputa setorial desde 1989″, época das grandes privatizações das ferrovias britânicas, exigindo aumentos salariais em linha com a inflação crescente.

Além dos salários, o RMT denuncia a deterioração das condições de trabalho e as “milhares de demissões” previstas pela miríade de empresas privadas que agora compõem o setor ferroviário britânico.

Shapps, que não participa oficialmente nas negociações porque o governo não administra as ferrovias, assegurou, no entanto, que há uma oferta salarial “na mesa” – insuficiente para RMT – e que “os cortes de empregos são em grande parte voluntários”.

O ministro afirmou ainda que no futuro vai estudar como proteger os usuários dos transportes públicos, impondo um serviço mínimo ou substituindo os grevistas por trabalhadores temporários.

O secretário-geral do RMT, Mike Lynch, respondeu que “essa bagunça foi criada por Grant Shapps e pela política do governo”.

Hoje será o maior dia de ação, já que os trabalhadores do metrô de Londres também entraram em greve. A paralisação continuará na quinta-feira e no sábado, mas as interrupções serão sentidas todos os dias até domingo, alertou TfL.

Para os britânicos, isso aumentará o caos das últimas semanas nos aeroportos, marcado por longas filas e centenas de cancelamentos de voos, já que o setor aéreo não consegue contratar funcionários suficientes em meio à crescente demanda após o fim das restrições sanitárias.

A greve também ameaça atrapalhar grandes eventos esportivos e culturais, incluindo o festival de música de Glastonbury no sudoeste da Inglaterra, um show dos Rolling Stones em Londres no sábado e os exames finais de alguns alunos do Ensino Médio.

Johnson disse a seu gabinete que as greves eram “erradas e desnecessárias” e disse que sua mensagem ao país era que eles precisavam estar prontos para manter o curso, pois as melhorias na maneira como as ferrovias são operadas são do interesse do público.

O governo diz que os sindicatos estão dando um tiro no próprio pé no momento em que o setor ferroviário, que recebeu 16 bilhões de libras (quase US$ 20 bilhões) em ajuda durante a pandemia, pode sofrer um declínio de longo prazo no número de passageiros enquanto aumenta o teletrabalho.

Mas em um contexto de inflação histórica, de 11% prevista para outubro, a greve ameaça se espalhar para outros setores, como educação, saúde e correios. Os advogados criminais já votaram a favor de uma greve a partir da próxima semana.
Recuperação lenta

A economia do Reino Unido inicialmente se recuperou da pandemia de covid-19, mas uma combinação de escassez de mão de obra, interrupção da cadeia de suprimentos, inflação e problemas comerciais pós-Brexit provocaram alertas de recessão.

O governo diz que está apoiando milhões das famílias mais pobres, mas alerta que aumentos salariais acima da inflação prejudicariam os fundamentos da economia e prolongariam o problema.

As ferrovias do país foram efetivamente nacionalizadas na pandemia, com as empresas operadoras de trens pagando uma taxa fixa para executar os serviços, enquanto os trilhos e a infraestrutura são gerenciados pela estatal Network Rail.

A RMT quer que seus membros recebam um aumento salarial de pelo menos 7%, mas disse que a Network Rail ofereceu 2%, com outro 1% vinculado a reformas do setor às quais se opõe. O governo foi criticado por não estar envolvido nas negociações.

Os ministros dizem que os sindicatos devem resolvê-lo diretamente com os empregadores.
A eclosão da ação industrial foi comparada com a década de 1970, quando o Reino Unido enfrentou greves trabalhistas generalizadas, incluindo o “inverno do descontentamento” de 1978-79.

O número de trabalhadores britânicos que são membros do sindicato caiu pela metade desde a década de 1970, com greves muito menos comuns, em parte devido a mudanças feitas pela ex-primeira-ministra Margaret Thatcher para dificultar a convocação de uma greve.

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