InícioFabíola ConscienteFicar careca: escolha ou falta de opção?

Ficar careca: escolha ou falta de opção?

Autoestima em jogo

Essa semana o mundo parou com a cena do Oscar onde o ator americano Will Smith deu um tapa no comediante Chris Rock para defender sua mulher de uma piada de super mal gosto sobre a doença autoimune de Jada Pinkett Smith: a alopecia.

Trata-se de um distúrbio causado pela interrupção no ciclo do crescimento capilar ocorrendo perda de cabelo ou de pelo em qualquer parte do corpo. O tipo mais comum é a que se manifesta no couro cabeludo, a calvície, que é o caso de Jada Smith.

Quando fiquei sabendo do ocorrido não me veio à mente se a atitude de Will em defender a mulher, através de um ato de violência era correto ou errado, ou se a piadinha descabida do Chris era desnecessária. Óbvio que acho isso, mas eu só conseguia pensar em Jada.

Ter que assumir uma careca por causa de uma doença não é fácil e eu vivi isso na pele.

Desde criança sempre tive o cabelo bem cheio e cacheado e sempre foi minha marca registrada. Chamava atenção, fazia um belo conjunto com meu rosto e me representava. Não era de fazer cortes mais ousados, quando queria mudar um pouco ia pra tinta, mas nunca fugia muito do que era. Era um símbolo.

Quando uma pessoa recebe o diagnóstico de câncer de mama, inevitavelmente lhe vem a cabeça o fato de ter que ficar careca. Esse, de fato, foi o momento mais tenso pra mim, chorei três dias sem parar até o ponto de não ter mais lágrimas e enfim me acostumar com a ideia.

Lembro-me como se fosse hoje do dia em que recebi a notícia. Me deram três sessões para que meus cabelos começassem a cair. Caíram em dez dias. Foi um baque! Saí correndo para fazer um corte curto para o cabelo pesar menos e tentar durar o máximo de tempo possível. Doce ilusão! Durou quatro dias, e foi aí então que decidi raspar tudo e encarar a carequice.

Até hoje, as pessoas me perguntam se eu usei perucas ou lenços para disfarçar a perda do meu cabelo, mas a minha “estratégia” foi ser careca mesmo. Eu acabava usando muito boné por conta da exposição da cabeça ao sol ou da sensibilidade ao frio e às vezes usava touca. Lembro-me claramente de dizer à Dra. Mayra que “Ah, beleza então! Já que é pra ser careca, eu vou ser a careca mais estilosa desse hospital”. Estava decidido!

E eu me curti careca. Achei que realçou os traços do meu rosto naquele primeiro momento e me recordo muito de uma entrevista que dei à época onde eu afirmava: “não tem como me esconder, dá pra ver na íntegra como eu sou e não é que eu sou bonita mesmo!” rs.

Brincadeiras à parte… chegou um momento em que o inchaço do corpo, a queda de cílios, de pelos das sobrancelhas e minha cor desbotada deixaram minha fisionomia de doente. Eu não era uma carequinha saudável, eu estava a “cara do câncer”. Inevitável e triste! Não tinha pra onde correr.

Ficar careca não sendo uma opção própria não é legal. Ficar careca por uma situação de doença não é uma escolha. Mexe com a imagem, autoconfiança e autoestima da mulher. Traz preocupação e dúvidas nos relacionamentos afetivos (no caso dela que bom ter um marido que compra sua dor e nesse sentido eu tô com o Will), etc, etc, etc. Não é que pra ser feminina o cabelo é indispensável, mas se isso for uma escolha por estilo, aventura ou qualquer coisa do tipo, ok, mas no caso de doença, não cabem piadas!

No meu caso, por maior que fosse o choque de ter perdido todas as minhas madeixas, eu sabia que o momento passaria e logo mais eu teria minha cabeleira de volta. Hoje estou aqui, novamente de cabelos cheios e cacheados e perfeitamente igual ao que era antes.

Nós, mulheres que perdemos os cabelos devido à uma doença, redescobrimos a beleza de outras formas e acabamos por aprender alguns truques. Pensando nisso meu projeto Fabíola Consciente faz doação de lenços e cabelos para aquelas que querem se reinventar e resgatar a feminilidade e autoestima. (Espalhe por aí!)

Quando penso na Jada, penso em como ela é uma mulher forte. Penso no tanto que ela sofreu (com certeza muito mais do que os meus três dias de choro), penso no quão difícil deve ter sido pra ela ter tomado a decisão de ser careca e penso no tanto que sua família sofreu junto.

Falaram de Will, falaram de Chris mas e a Jada?

Eu entendo sua dor e tenho empatia.

Que mulher, que força, que linda!

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